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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Longe da novidade

As empresas do Brasil investem pouco em tecnologia e inovação, menos que o governo, que também investe pouco em ciência e tecnologia. Qualquer comparação internacional mostra que em outros países as empresas investem mais em inovação porque receberão em troca algo concreto: produtos que podem dar a elas muito lucro e dianteira na disputa com competidores.

Em relação ao PIB, nossos investimentos no setor são os mais baixos entre as maiores economias. Esse é um dos inúmeros gargalos que o Brasil enfrenta. São investimentos em pesquisa, ciência e inovação que farão o país gerar conhecimento, criar produtos, serviços e técnicas novas de produção para conquistar a longo prazo mais espaço no comércio internacional. Ciência e tecnologia são coisas diferentes, como explica Roberto Nicolsky, da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec):

— São conceitos confundidos. Ciência é busca por conhecimento novo, é a fronteira do saber. Tecnologia, ou inovação, é usar conhecimento que já existe, científico ou não, e adaptá-lo à produção.

Perdemos nos dois campos. Em relação ao PIB, estamos investindo menos que outros países tanto em ciência quanto em pesquisa e desenvolvimento tecnológico (P&D). De acordo com dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, os gastos com P&D fecharam 2009 em 1,19% do PIB. Muito menos que Coreia do Sul, por exemplo, que investiu 3,36%; Cingapura, 2,61%; e Austrália, 2,21%.

As empresas lideram investimentos em pesquisa e desenvolvimento em países de ponta. No Japão, elas foram responsáveis por 2,69% do investimento em relação ao PIB, enquanto o setor público ficou com 0,54%. Na Coreia, a relação foi de 2,45% para 0,54%. No Brasil, as empresas gastaram 0,55% e o governo, 0,61% do PIB.

Num programa que fiz esta semana no Espaço Aberto, Nicolsky defendeu que as empresas sejam subsidiadas para investir em P&D. Mas há quem considere que falta às empresas brasileiras cultura de pesquisa e inovação.

— As empresas não têm ainda esta cultura. Estão atoladas em impostos, juros altos e têm aversão a investimento de risco. Há também a forma como elas se desenvolveram, com importação de bens de capital e tecnologia. Importa-se bens de capital e com treinamento a produtividade cresce — explicou o presidente do CNPQ, Glaucius Oliva.

Nicolsky acha que o país investe muito em ciência e pouco em inovação. Acredita que estamos 40 anos atrasado. Defende que o Brasil está com déficit de US$ 84 bi em produtos e serviços que envolvem tecnologia. Outros fazem contas bem menores, mas em todas há déficit. Ele defende que gastos com ciência fiquem com as universidades, enquanto as empresas se concentrem em P&D:

— O governo arrecada R$ 3 bi por ano das empresas mas repassa 82% para ciência e 18% para P&D. Crescemos muito na publicação de teses mas continuamos fracos no registro de patentes.

Pode até ser, mas um aluno de mestrado no país recebe R$ 1.200 de bolsa do CNPQ, pouco mais de dois salários-mínimos, enquanto o de doutorado ganha R$ 1.800. Glaucius Oliva, presidente do CNPQ, justifica o valor:

— Temos sempre que optar entre crescer o valor da bolsa ou aumentar o número de bolsistas. Em 10 anos, o número de bolsistas saiu de 14 mil para 70 mil.

A maior parte do investimento empresarial em ciência e inovação no Brasil é feita pela Petrobras. Por ano, a empresa gasta R$ 1,45 bilhão em ciência e tecnologia, mantendo o maior centro de pesquisa da América Latina, o Cenpes.

— Nossa visão é que ciência e tecnologia são complementares. O foco é inovação, mas se o conhecimento não é suficiente é preciso ir à ciência. Temos parceria com universidades, com orçamento de R$ 400 milhões, para estudos na nossa área — disse Carlos Tadeu Fraga, gerente-executivo do Cenpes.

A Vale também investe pesado e tem projeto de R$ 900 milhões para construir o Instituto Tecnológico Vale (ITV). O diretor-presidente do ITV, Luis Mello, diz que uma das dificuldades na área é conseguir aproximar os universos científico e empresarial:

— De uma forma geral, a visão do empresário é que o cientista tem pouca noção de custos e prazos. Já a universidade acha que as empresas tem visão limitada e imediatista. Mas as barreiras estão sendo quebradas.

Luis Edmundo Aires, vice-presidente de tecnologia e inovação da Braskem, diz que as mudanças econômicas dos últimos 20 anos estão forçando as empresas a ampliar investimentos na área:

— A estabilização trouxe o planejamento de longo prazo. A abertura comercial faz as empresas investirem em inovação para se diferenciar dos concorrentes externos.

O setor de cosméticos investe porque precisa desenvolver princípios ativos próprios para se diferenciar. Alessandro Mendes, diretor de desenvolvimento de produtos da Natura, que investiu R$ 140 milhões na área em 2010, cita outro motivo para explicar o atraso do Brasil:

— A inovação geralmente é feita na matriz. Então quando filiais vêm ao Brasil, elas não trazem essa produção, recebem de fora a informação.

Seja qual for o motivo, o fato é: o Brasil está atrasado.

Fonte: oglobo.globo.com/economia/miriam

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